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As muitas vidas que existem dentro de uma vida

Foto do escritor: Sergio Rodrigues
Sergio Rodrigues
há 3 horas
9 min de leitura

Riccarda Zezza é uma empreendedora e pesquisadora italiana que há mais de uma década investiga uma pergunta que ganha importância à medida que vivemos mais: o que fazemos com tudo aquilo que aprendemos ao longo da vida?


Fundadora da Lifeed, uma plataforma digital de educação corporativa que transforma experiências e transições da vida real — como a maternidade, a paternidade e o cuidado de pais idosos — em competências profissionais, Zezza começou sua trajetória de pesquisa justamente olhando para a maternidade. A partir da experiência de milhares de mães, passou a investigar as habilidades desenvolvidas durante a licença-maternidade e como elas poderiam ser reconhecidas e levadas de volta ao ambiente profissional. O projeto cresceu e passou a envolver também pais, cuidadores e pessoas em diferentes papéis da vida.


Desse percurso nasceu o conceito de transiliência, tema de seu novo livro, Transilience — You Are Much More Than You Imagine, publicado na Itália em junho e editado no Brasil pela Voo. A autora esteve em São Paulo para participar do 8º Fórum & Festival da Longevidade, realizado entre os dias 24 e 26 de setembro, no prédio da Bienal, no Parque do Ibirapuera.


A ideia central do livro é que as competências que desenvolvemos em uma determinada experiência não precisam ficar confinadas a ela. Podemos transferir recursos, habilidades e aprendizados de um papel para outro: da maternidade para o trabalho, da vida profissional para a vida pessoal, da experiência de cuidar para outros desafios.


Aos 54 anos, mãe de dois filhos e em uma nova etapa profissional — passando, como ela mesma diz, de empreendedora a pesquisadora — Zezza quer transformar mais de dez anos de experimentação em conhecimento público. Sua investigação parte de uma constatação especialmente provocadora quando pensamos em longevidade: somos muito mais do que a idade que temos ou o papel que ocupamos em determinado momento.

Zezza: "Pessoas mais velhas têm competências que não estão mostrando"  - Foto: Reprodução/LinkedIn de Riccarda Zezza
Zezza: "Pessoas mais velhas têm competências que não estão mostrando" - Foto: Reprodução/LinkedIn de Riccarda Zezza

No mercado de trabalho, porém, pessoas com mais de 50 anos ainda são frequentemente vistas a partir de estereótipos: menos flexíveis, menos abertas à tecnologia, menos dispostas a aprender. Zezza argumenta que o problema pode estar justamente no que deixamos de enxergar. Competências como criatividade, agilidade mental, capacidade de adaptação e inovação continuam presentes — mas podem não encontrar espaço para aparecer.


Em uma pesquisa realizada no Brasil em parceria com a FGV, com 300 pessoas acima dos 50 anos, Zezza encontrou, segundo relata nesta entrevista, uma capacidade de transiliência ainda maior do que a média de sua base de dados.

Durante o 8º Fórum & Festival da Longevidade, Zezza falou sobre envelhecimento, trabalho, experiência e inteligência artificial. E explica por que o desafio talvez não seja preparar pessoas mais velhas para um mundo novo, mas aprender a reconhecer os recursos que elas já carregam.


“Somos muitas coisas ao mesmo tempo”


A PARTIR DE AGORA — Conte um pouco sobre sua trajetória.

RICARDA ZEZZA — Sou Ricarda Zezza, sou italiana. Trabalhei como executiva em grandes empresas e, há cerca de 15 anos, deixei meu último emprego e comecei minha própria empresa e meu próprio projeto de pesquisa.


Tudo começou com as mães. Eu vendia para empresas um programa que identificava as competências que as mulheres desenvolviam durante a licença-maternidade e as ajudava a levar essas competências de volta para o trabalho. O nome do programa era Maternity Is a Master.


Depois, avançamos e começamos a envolver também pais, cuidadores e outras pessoas. Ao longo de dez anos, a plataforma envolveu mais de 70 mil pessoas, ajudando-as a identificar um mapa das competências que desenvolvem em cada papel que desempenham na vida e a entender como levar essas competências para o trabalho.


Hoje tenho 54 anos, dois filhos e estou começando, de certa forma, uma nova carreira. Estou passando de empreendedora para pesquisadora. Quero tornar esses dados públicos e gerar cada vez mais conhecimento sobre esse tema.


A PARTIR DE AGORA — Você está no Brasil não apenas para falar sobre sua pesquisa no 8º Fórum & Festival da Longevidade, mas também para lançar seu livro. Do que ele trata?


RICARDA ZEZZA — O título é Transilience — You Are Much More Than You Imagine. Ele foi publicado na Itália em junho, há alguns meses. O Brasil é o primeiro país estrangeiro onde estou publicando o livro, graças à parceria com a Lamora e com a editora que eles me apresentaram.


Transilience é um livro sobre uma nova competência que venho investigando nos últimos dez anos. É a capacidade de transferir competências e recursos entre os diferentes papéis que desempenhamos na vida.


Posso, por exemplo, transferir para o trabalho a liderança que desenvolvi como mãe. Ou levar para casa minhas habilidades de organização adquiridas no trabalho.


O livro faz, basicamente, três coisas.


A primeira é mostrar às pessoas como construir um mapa mais amplo da própria identidade. Somos muitas coisas ao mesmo tempo. Em média, temos pelo menos cinco papéis ativos em nossas vidas.


Normalmente pensamos que esses papéis competem entre si, principalmente pelo nosso tempo. Mas, na realidade, eles formam um mapa muito maior.


A segunda é romper o estereótipo de que, quando uma camada da nossa identidade se torna muito forte, ela necessariamente reduz todas as outras.


Vou dar um exemplo relacionado à longevidade. Quando uma pessoa é identificada como alguém com mais de 50 ou 60 anos, essa pode ser uma categoria útil, mas ela pode se transformar em um rótulo único. A pessoa passa a se identificar apenas como alguém mais velho e esquece todas as outras coisas que é.


Com isso, a quantidade de recursos que ela tem à disposição diminui. É importante entender que nosso mapa pode ficar menor por causa das circunstâncias, mas podemos ampliá-lo novamente.


O terceiro passo é: depois de entender que nosso mapa pode ficar menor diante de uma ameaça ou de um problema, e que podemos ampliá-lo novamente, como fazer nossos recursos circularem por esse mapa?

Em cada papel usamos competências diferentes. Isso é normal. Mas, às vezes, precisamos levar uma competência de um papel para outro. É aí que entra a transilience.

 

“Nós já fazemos isso, mas sem perceber”


A PARTIR DE AGORA — Essa capacidade já existe nas pessoas?


RICARDA ZEZZA — Sim. Nós já fazemos isso. Eu diria que usamos essa capacidade cerca de 30% do tempo. Transferimos competências e recursos de um papel para outro, mas fazemos isso sem perceber.

Nos outros 60% ou 70% do tempo, não fazemos isso — e tudo bem. Mas, quando enfrentamos um desafio, uma mudança, uma transição, quando queremos um novo emprego ou precisamos mudar de carreira, é muito útil saber que podemos acessar outras competências que já temos em nossa vida e utilizá-las para nos apresentar de uma nova maneira profissionalmente.


A PARTIR DE AGORA — Se você tivesse que apontar um dos principais objetivos do livro, qual seria?


RICARDA ZEZZA — O principal objetivo é tornar todas essas informações públicas.


Venho pesquisando esses temas há mais de dez anos e percebi que ninguém possui esse tipo de dado. São dados muito simples: que tipos de papéis as pessoas desempenham na vida; que características e competências utilizam em cada papel; e quais comportamentos adotam.


São apenas essas três coisas. Mas, apesar de sabermos tanto sobre as pessoas, não temos bases de dados sobre isso.


Quero disseminar esses dados e torná-los públicos, para que todos possam utilizar esse tipo de competência e ter mais recursos à disposição.

 

“O ambiente de trabalho sozinho não consegue mudar as coisas”


A PARTIR DE AGORA — Você acha que o mercado mundial está preparado para esse conceito?


Não sei se na Itália é verdade, mas ouvi dizer que cerca de metade da população italiana tem mais de 50 anos. O Brasil tem um perfil diferente, mas está envelhecendo rapidamente. Talvez daqui a 20 ou 30 anos estejamos em uma situação semelhante à da Itália hoje.


Aqui no Brasil, essas questões ainda são difíceis. Em geral, as empresas não querem contratar pessoas com mais de 50 ou 60 anos. Na Itália a situação é diferente?


RICARDA ZEZZA — Tenho que dizer que venho trabalhando com uma questão semelhante, a das mães no mercado de trabalho.


Se pensarmos bem, o ambiente profissional, de certa maneira, evita encarar o fato de que a vida está ficando mais longa e mais complexa para todos. Ele tenta manter tudo muito simples, porque acredita que simplificar torna as coisas mais rápidas.


Assim, qualquer complexidade — ser mais velho, ser mãe, ser pai ou ser cuidador — é vista como um problema.


Mas acho que a pergunta não deveria ser exatamente se o ambiente de trabalho está preparado.


Nos últimos dez anos trabalhei com empresas, e os dados apresentados no livro vêm justamente de experiências realizadas com empresas que aceitaram experimentar algo extremamente novo: a ideia de que uma pessoa pode levar competências de outros papéis para o trabalho.


Trabalhamos com grandes marcas internacionais, como a italiana Max Mara, com o sistema postal italiano, bancos e muitas outras grandes empresas. Elas precisavam de alguma função que assumisse o risco de experimentar algo novo.


Portanto, os dados e a parte concreta do meu trabalho existem graças a ambientes profissionais que estavam dispostos a experimentar e tinham motivação suficiente para tentar algo novo.


Mas não consegui transformar isso em algo sistêmico, porque o ambiente de trabalho sozinho não consegue mudar as coisas.


O mercado não funciona em um vácuo. As pessoas chegam ao trabalho depois da escola e da universidade. Existe a academia, existe a cultura, existe a política. Existe todo um mundo ao redor.


Não podemos esperar mudar as coisas apenas por meio do mercado enquanto, ao seu redor, tudo está retrocedendo ou permanecendo igual.


Por isso estou passando de uma atuação baseada apenas em experiências no mercado para uma tentativa de criar uma ciência e uma cultura em torno desse tema.


O ambiente de trabalho nunca estará realmente preparado se tudo ao seu redor não estiver pressionando nessa direção.


Às vezes pedimos às empresas que produzam um impacto social que a própria sociedade não está produzindo. Isso não faz muito sentido. As empresas têm outras métricas que precisam seguir, como o lucro.

 

“Pessoas mais velhas têm competências que não estão mostrando”


A PARTIR DE AGORA — Então me fale sobre a situação italiana. É comum hoje uma pessoa com mais de 50 ou 60 anos conseguir emprego facilmente na Itália?


RICARDA ZEZZA — Eu diria que esse é um desafio bastante global neste momento.

Existe o estereótipo de que pessoas mais velhas são mais caras. Também existe a ideia de que provavelmente sabem menos sobre tecnologia, estão menos dispostas a aprender ou são menos flexíveis.


Elas podem ser mais caras, e não há nada que possamos fazer em relação a isso. Mas, em relação a todo o resto, posso mostrar com dados que estamos falando apenas de estereótipos.


E, por causa desses estereótipos, acontece uma coisa interessante: pessoas com mais de 50 anos realmente têm competências como flexibilidade, agilidade mental, criatividade e capacidade de inovação, mas não demonstram essas competências no trabalho.


Elas acabam se encaixando no estereótipo. Não levam para o trabalho as competências que o ambiente profissional não espera delas.


Mas elas possuem essas competências. E muitas vezes as utilizam em seus hobbies ou na vida familiar.


Isso é ridículo.

 

“A agilidade mental delas era ainda maior”


A PARTIR DE AGORA — Você realizou uma pesquisa no Brasil sobre isso?


RICARDA ZEZZA — Fizemos aqui no Brasil uma pesquisa com a FGV envolvendo 300 pessoas com mais de 50 anos.


E elas estavam ainda mais preparadas para utilizar a transilience do que a média da população da minha base de dados.


A PARTIR DE AGORA — Sério?


RICARDA ZEZZA — Sim. A agilidade mental delas era ainda maior do que a dos mais jovens.


A PARTIR DE AGORA — Por causa da experiência?


RICARDA ZEZZA — Exatamente. Porque têm mais experiência. Estão mais preparadas para mudar novamente.


Elas não são analfabetas digitais. E, especialmente hoje, com a inteligência artificial, nem acho que seja necessário ser tão alfabetizado digitalmente assim. É preciso, sobretudo, superar o medo.


Com a IA, qualquer pessoa pode ser criadora. Eu tenho 54 anos e uso IA todos os dias.

 

“Não podemos continuar simplificando demais”


A PARTIR DE AGORA — Uma última pergunta. Se você fosse uma líder de RH de uma empresa global, atuando em diferentes países, que mensagem daria sobre esse assunto? O que diria sobre como reconhecer e absorver essas competências? E, pensando especificamente no ChatGPT e nas capacidades da inteligência artificial, o que você diria a um líder de RH?


RICARDA ZEZZA — A introdução do meu livro tem como título “Dancing with Complexity” — Dançando com a complexidade.


Nunca vivemos em um mundo tão complexo como o de hoje. Há novas mudanças todos os dias e a complexidade está crescendo.


Por isso, não podemos continuar simplificando demais as coisas.


Pessoas com mais experiência, pessoas que passaram por mais situações ao longo da vida, têm uma complexidade maior dentro delas. E isso pode ajudá-las a lidar com a complexidade que existe do lado de fora.


Talvez você não consiga enxergar isso. Porque, se não permitir que essas competências apareçam, elas não chegarão até você.


Você pode dizer: “Mas isso não está acontecendo”.


Não está acontecendo porque é preciso criar o ambiente para que aconteça.


É preciso tornar essas competências visíveis. E, quando você fizer isso, elas estarão lá.


Elas já existem. Você só precisa acender a luz. E então elas estarão disponíveis para você.


A PARTIR DE AGORA — Muito obrigada, Ricarda. Obrigada também pela sua simpatia.

Você é realmente uma pessoa muito cativante.


RICARDA ZEZZA — Obrigada. Felizmente, sabe? Acho que essa é uma competência que eu tenho.

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